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Alongamentos Prosaicos
 

A vida

            Cadência sistemática de dias que vão passando uns seguidos dos outros.
            Eu busco a plenitude, tenho objectivos e convicções que sigo sem sequer me dar conta. Sou um ser que como tantos outros tenho altos e baixos e que reparo e fico compenetrado extasiadamente no desenrolar de algumas situações. Sou aquele que por mais que me esforce para que um dia me saía a “preceito”, repetindo a mesma atitude dia após dia, noto claramente que o tempo passou a uma velocidade horripilante.  
            Quê? , já estou em Dezembro? – penso eu admiradamente quando me apercebo da surrealidade da situação. 
            A verdade “nua e crua”(como uma simples cenoura), é a mais vitaminada, e aquela que me faz enxergar clara e intuitivamente, que os meus declarados esforços para tornar cada dia mais alegre e feliz, foram na verdade infrutíferos, e o que eu tenho  na realidade são uma infinidade de Segundas, Terças, Quartas, Quintas, Sex.......................  todas praticamente iguais, sendo as diferenças de semana para semana tão pouco nítidas que poderei alcunhá-las de “neblina semanal”, ou será mensal, bem talvez o correcto seja anual................... Espera aí? Será que esta neblina encobre a vida desde o início dos tempos? Será que o pregão que repetidamente ouvimos de que o tempo que passa rapidamente é um tempo que adorámos, não foi uma expressão subentendida daquela outra que diz que o “tempo manco”(aquele que parece não ter força nas pernas para andar)é um tempo desgastante , e de que não gostámos minimamente? Será que o ser humano, na sua ignorância, não confundiu as duas coisas?   
            Penso obstinadamente que sim.
            Na minha miúdez (perante a grandeza do mundo) eu penso, eu reflicto concentradamente em tudo o que disse anteriormente, e posso então declarar, com toda a convicção, que para mim a vida é:

 

                                    Um espaço de tempo,  
                                    uma prova, quiçá um teste!  
                                    A derradeira oportunidade
                                    De agradarmos a um mestre.

 

                                    É o evoluir, é o regredir,
                                    é o viver no presente,
                                    é o recordar o passado,     
                                    sempre com o futuro em mente.

                                

                                    É o aproveitar dos recursos......

 

                                    É algo que nos faz pensar: 
                                    De onde vim eu?
                                    E sentir que isso tem uma resposta, 
                                    Que ninguém me poderá dar!

 

                                                                                                                                                                                                                                  
         E nesta “dúzia” de versos que podem ser denominados de “delírios”, mas que jamais e em tempo algum, ninguém pode deixar de entender como uma opinião de alguém, que como uns tantos milhões de pessoas em todo o mundo, se sente frustrado por viver não sabe bem onde, não sabendo bem porquê e muito menos para quê!
         Pode então concluir-se que só se poderá ser totalmente feliz (se é que alguém o é), se se abstrair completamente destas questões, admitindo perentóriamente que não sabe de onde vem, não quer saber, e nem sequer ache que isso contribua para a sua felicidade!

       Ou não será? 




 

                                   O Tapuia urbano

        É belga, tem uma aparência invulgar, embora de escandalosa nada possua. Um discurso fluente, até burguês, não na virtuosa língua mãe, mas no cada vez mais universal inglês com que ia respondendo detalhadamente ao entrevistador, admitindo sem qualquer pejo que gostava tanto de sangue como eu de chocolate, ou talvez mais, talvez muito, muito mais.......
        Para além disto, a confissão plena de serenidade da forma macabra como matou uma pessoa a sangue frio pela simples curiosidade de saber o que sentiria ao fazê-lo. 
        O que sentiu? Regozijo é a palavra certa para descrever o seu estado de espírito nos momentos imediatamente posteriores ao acto.
        Prosseguiu, relatando fria e minuciosamente os métodos de que dispunha para conseguir sangue; servindo-se do cemitério como ponto de abastecimento, ou simplesmente, infiltrando-se num hospital e saqueando os depósitos para transfusão (qual caçador em busca de seu tesouro!?!!), todos estes pormenores esculpidos de forma tão gélida, tão descarregada de sentimento, que só por isso já se tornavam revoltantes! 
        Depois de saber o que ele era, o meu cérebro era cadêncialmente importunado pela dúvida insaciável ( o ignorante “porquê”?). Não me interessa agora expor a conclusão a que cheguei, mas antes o que me levou a ela, e esperar que ninguém se perca pelo caminho!?...
        Começo por dizer que o belga, filho de um relações públicas de uma multinacional, cedo se tornou um dos nómadas do nosso tempo. “Despatriado”, tem como recorde de permanência num só país a fantástica marca de um ano e meio. 
        Sem tempo para “cultivar” amizades, fazia do quarto o seu mundo e os livros de vampiros(lidos á luz de um candeeiro) serviam-lhe de produto do cultivo, comprado em supermercado.
        De quando em vez, lá descia á terra, fosse para trocar “um quarto de dedo mindinho” de conversa com o pai assoberbado; fosse para ouvir os professores contratados para assegurar a sua educação. Omito aqui propositadamente o relacionamento com a progenitora, pois essa pode ser caracterizada como:  “aquela que nunca lhe encostara os lábios na face”. E mais não é necessário dizer......... 
        Para culminar esta reflexão, explicito apenas a ultima fala do visado, dirigindo-se ao jornalista, que o questiona sobre o que sentiu ao relembrar aquelas passagens da sua vida, “disparando”: “Estou aqui cheio de vontade de perceber a que sabe o teu sangue!?...............”